Beldroegas

No Verão estas bonitas folhinhas carnudas recheiam os meus pratos. E este ano são da minha horta! Estou tão feliz por ver os belos mandalas de beldroegas crescendo por aqui, de forma espontânea, com tanta força e abundância! Um valioso regalo, reflexo de que o solo agora tem mais vida, graças ao carinho e nutrição que lhe temos dado.

Eu vibro muito com tudo o que cresce assim, de forma espontânea, de Graça… além da magia inerente à surpresa, da rebeldia na forma da aparição e da força vital que trazem, as plantas silvestres comestíveis têm um poder nutricional incrível, que é, de um modo geral, superior ao das cultivadas!

E penso cá para mim… acho que é “pecado” não as comermos e não usufruirmos destes regalos divinos em forma de “superalimento”…

Temos o direito e o dever de recuperar a relação com as plantas silvestres comestíveis e medicinais, apesar de desconsideradas na sociedade industrial capitalista. Elas fazem parte da nossa cultura e humanidade e trazem respostas e soluções para muitos problemas actuais…

Se vives na cidade também as encontras, às beldroegas e outras bravias, quer em jardins, quer por entre as pedras das calçadas, em fendas de paredes ou até mesmo nas fissuras do alcatrão, de onde conseguem irromper, qual manifesto de vida e beleza, materializando diálogos secretos entre os elementos e recordando-nos a resiliência eterna da mãe Natureza. Contempla-as mas não as consumas (estas dos espaços públicos urbanos), pois podem estar contaminadas por venenos ou dejectos de animais. É melhor fazer um passeio por hortas, jardins e bosques onde saibamos que estão limpas.

Felizmente o interesse pelas PANC’s (Plantas Alimentícias Não Convencionais) está em expansão e é frequente encontrá-las à venda nos mercados de produtores biológicos – no Príncipe Real, Campo Grande, Feira da Ladra, etc –  (quando vivia em Lisboa era lá que ia comprar)

As beldroegas (Portulaca oleracea) dão-se especialmente bem em hortas, a par com as hortícolas, onde usufruem das regas abundantes destinadas a estas e da fertilidade do solo. As suas sementes são minúsculas e cada planta gera milhares, que depois podem permanecer viáveis ​​no solo por décadas! Ao encontrarem as condições ideais, lá para finais de Maio, as mais bravias começam a brotar e as suas folhinhas vão-se expandindo, com geometrias estrelares, criando belos tapetes em “horror vacui”.

Sou muito grata pela abundância desta plantinha aqui na terra! Elas são daqueles superalimentos com inúmeras propriedades, além de que têm um sabor e textura maravilhosos!

São uma das plantas mais ricas em Omega 3. Alguns investigadores referem mesmo que tem DHA (ácido gordo essencial, da família Omega 3, com grande poder antinflamatório e antioxidante, sobretudo a nível cerebral e do sistema nervoso) nos rebentos tenros, algo que parece ser inédito numa planta de terra (algumas algas marinhas e peixe azul são as fontes de que se tem conhecimento).

Têm também grande quantidade de compostos antioxidantes: como a vit. E, C, betacarotenos, flavonoides… E vários minerais importantes, incluindo potássio, magnésio e cálcio.

Estas características fazem dela uma planta com importantes propriedades antinflamatórias e excelente para o fortalecimento imunitário. É também muito interessante como diurética e digestiva – devido aos mucílagos, é óptima como calmante a nível das mucosas digestivas e das vias urinárias. Essas propriedades emolientes também têm utilidade a nível externo em situações de queimaduras e outras irritações de diversas etiologias.

Como consumir:

As possibilidades são infinitas pois toda a planta é deliciosa e comestível (inclusive as sementes). Quem já me conhece sabe da minha paixão pela Alimentação Viva e crua e com o calor o meu corpo naturalmente pede saladas gigantes, coloridas, cheias de beldroegas! Em cru aproveito ao máximo as suas propriedades e a textura suculenta. Quer as folhinhas, quer os caules jovens são super tenrinhos e crocantes, com um toque ácido suave e mucilaginoso. Adoro! Combinam bem com tudo, devido ao ser sabor suave, nada invasivo. Eu gosto especialmente de juntar tomate, pepino e orégãos, entre outras plantas, silvestres e de cultivo, que crescem na horta.

Cozinhadas também são deliciosas e o sabor intensifica-se. Na nossa gastronomia temos as famosas sopas de beldroegas, típicas do Alentejo. Eu adoro sopa de beldroegas com tomate (acho que há uma simbiose especial entre os dois). Aproveitando os excedentes da horta, hoje fiz um puré de curgete com batata, cebola e alho. Já quase no final juntei as beldroegas (elas cozem muito rápido), tomatinhos, muuuiitos orégãos e azeite. Ficou uma delícia!

Também as podes juntar em arrozes, guisados, lasanhas, etc.

E tu, já usas as beldroegas? Como gostas de as consumir?

Arrozinho de urtigas!

Uhm, adoro!

Simplicidade e minimalismo de uma receita que resulta num delicioso manjar com superpoderes nutritivos!

A urtiga comum (urtica dioica) é talvez a mais famosa das PANC’s (plantas alimentícias não convencionais). É uma planta fabulosa, super versátil, com um largo historial de utilidades, não só a nível medicinal e alimentício, como também têxtil e agrícola.

Para mim é um superalimento delicioso! E incluo-a com frequência nas minhas refeições! Quer em batidos, sopas, molhos ou em arroz, como hoje!

Gosto muito destes regalos grátis, espontâneos e generosos da terra, incrivelmente ricos em nutrientes e em “prana”, e que nos trazem a memória de um modo muito ancestral, autónomo e intuitivo de alimentar-nos – a recolecção selectiva de plantas silvestres.

Elas têm a magia de aparecer de surpresa no lugar e na estação em que escolhem crescer. E deste alinhamento secreto resulta uma grande diversidade e riqueza nutricional oferecida em sintonia com os ciclos da natureza… e os nossos…

Hoje felizmente cá estamos muit@s resgatando esta prática milenar de recolecção e conexão, quase perdida devido ao desenvolvimento da indústria alimentar e farmacêutica.

A urtiga é uma das plantas silvestres mais nutritivas e mais acessíveis a qualquer um! Cresce desde o Outono ao final da Primavera, por praticamente todo o Portugal, em zonas húmidas e férteis. Este ano as chuvinhas abundantes favoreceram o contínuo crescimento de plantas tenrinhas!

É uma das maiores fontes conhecidas de “proteína verde”!! E é super rica em clorofila, em minerais (ferro, cálcio, magnésio, silício, cobre, etc), em vitaminas do complexo B, vitamina C, A… antioxidantes, fibras… tudo em perfeitas sinergias para a tonar num superalimento e medicina útil para diversas maleitas. Destaco o seu poder remineralizante, reconstituinte, anti-inflamatório e diurético, sendo muito útil no tratamento e prevenção da anemia, em temas de saúde óssea, reumatismos, em detox, no tratamento de alergias, em diversos problemas de pele, queda de cabelo, para estimular a produção de leite materno, equilibrar as hormonas, o sistema nervoso, etc.

Devemos escolher as urtigas mais jovens e menores. As urtigas adultas, em floração, são mais fibrosas e contém cistólitos, que podem irritar o trato urinário.

Podemos usá-las cruas ou em chás, sopas ou outras receitas. Em cru temos a vantagem de manter intacta a vitamina C, entre outros nutrientes. No entanto, devemos ter algumas precauções por causa da acção urticante (devido ao ácido fórmico e histamina que penetram na pele através dos pelinhos existentes nas folhas e caules). É mais prudente usá-la em sumos ou batidos ou então amassá-la antes de colocar na boca.

Contudo, a nível externo o seu carácter urticante tem surpreendentes benefícios! Na medicina naturista usa-se para activar a circulação, sobretudo nas articulações e extremidades do corpo, como tratamento para artrite, reumatismo, paralisia muscular, etc. E mais, através desses pelinhos, além do ácido fórmico e da histamina, também penetram na pele serotonina e acetilcolina!!! Portanto a acção urticante é um poderoso estímulo não só físico como químico sobre o nosso vigor! (Abstenha-se quem tiver sensibilidade à histamina ou alergia a algum dos componentes da planta)

Mas vamos à receita!

1º escolhes um arrozinho integral de grão redondo, de preferência biológico e português (temos uma excelente produção na região de Setúbal). Colocas de molho por 8 a 10hs.

2º apanhas as urtigas num local limpo (sem pesticidas, nem excrementos de animais). Escolhe as mais verdinhas e jovens, sem flores. Para não te picares o mais prático é usares luvas.

3º enxagua o arroz e leva a cozinhar no dobro da água com o lume brando. Passados uns 20 minutos juntas o sal e as urtigas (previamente lavadas) e mexes de maneira a envolvê-las bem. Passados 5 minutos apagas o fogo e deixas repousar.

Combina maravilhosamente bem com um topping de pinhões (estes vieram de pinhas também apanhadas por mim) e regado com um fio de azeite.

Se queres saber mais sobre o uso alimentício de plantas silvestres e a alimentação “plant based”, não percas o meu próximo workshop: “Plant based diet, tudo o que precias saber”