Vamos às Amoras?

Em bosques, matas e terrenos baldios, Agosto é, por excelência, o mês das Amoras! Que maravilhosa sincronicidade, que chegado o mês de maior calor e das “férias de praia”, a Natureza nos regala um super fruto com grandes poderes antioxidantes! Já sabemos (ver post anterior) que para melhorar a resistência da pele ao Sol, necessitamos fazer uma alimentação rica em antioxidantes, baseada em vegetais e frutas, com muita cor e frescura. Os alimentos silvestres têm um conteúdo superior em nutrientes e substâncias medicinais. Há pois que estar atentos e aproveitar ao máximo estes deliciosos alimentos espontâneos, as amoras, tão abundantes e fáceis de encontrar em toda a nossa geografia.

As amoras são o fruto das “nossas” silvas – planta silvestre que é da família das rosas e também ela oferece lindíssimas flores a par com pequenos espinhos. Estes arbustos são muito expansivos e facilmente assumem o controle de ruinas, criam sebes, preenchem baldios ou ocupam orlas de florestas. Para fazer a recolecção de amoras, ou de qualquer outro fruto/planta silvestre, devemos sempre escolher locais limpos e livres de pesticidas.

Esta fruta, no seu ponto de maturação, é deliciosa e tem incríveis propriedades nutricionais e medicinais!

Destacam-se por serem extremamente ricas em bioflavonoides (compostos bioativos com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e anticancerígenas), entre eles as antocianinas, pigmento que lhes dá aquela bela cor roxa e nos pode trazer muitos benefícios na protecção frente à oxidação e degeneração celular, sendo especialmente interessante para todo o sistema circulatório sanguíneo. Além disso, nas amoras temos as antocianinas, em combinação com o ácido elágico o que oferece uma importante protecção frente certos tipos de cancro.

Outro componente interessante de destacar é o ácido salicílico – substância que funciona no nosso organismo como antiagregante plaquetário, impedindo a formação de trombos, o que, junto com os aspectos referidos acima, a torna uma medicina muito útil na prevenção de problemas cardíacos. As amoras são também muito ricas em manganésio, potássio, magnésio, cobre e ácido fólico.

O ideal é consumi-las frescas, no momento da colheita. Também se podem, contudo, fazer incríveis preparações de xaropes ou vinagres para subir a imunidade no inverno. E os mais gulosos podem desfrutar da sua grande versatilidade em compotas, bolos, etc. É uma fruta que se preserva muito bem congelada, sem ficar com as suas propriedades alteradas com o processo. Eu gosto muito também de as usar no kombucha, na 2ª fermentação. Deixo à temperatura ambiente durante 3 dias, depois filtro e guardo no frigorífico (onde pode ficar meses).

As silvas oferecem-nos alimento e medicinas não só no seu delicioso fruto como também nas folhas e até nas raízes! Estas são especialmente caracterizadas por terem propriedades adstringentes, tónicas, depurativas e ligeiramente diuréticas, e têm sido sabiamente utilizadas desde antanho no tratamento de diarreias, hemorroides, aftas, inflamação de gengivas, da garganta, em cistites, como tónico uterino, etc.

As folhas podem também ser utilizadas como hortaliça, em sopas ou guisados.

Amoras ou gojis?

As amoras silvestres ganham aos morangos, mirtilos, framboesas e até mesmo às goji, ah pois é! No que se refere ao seu poder antioxidante as bagas goji têm um valor ORAC (Capacidade de Absorção de Radicais Livres) de 3.290. No entanto, o ORAC das amoras é consideravelmente mais alto: 4.669! Então, se procuras as goji apenas pelo seu valor nutricional, já sabes que, com as amoras ficas mais bem servida no que se refere aos antioxidantes. Mas, bom, não sou eu muito fã deste tipo de análises, mas deparei-me com essa comparação e quis partilhar, pois sou uma apologista do consumo local, sazonal e da recolecção. Além de termos o suporte de estudos que confirmam os benefícios para a nossa saúde dessas escolhas (como já partilhei anteriormente), acredito também haver uma simbiose local entre a nossa biologia e a Natureza que nos rodeia, sendo mais nutridores e equilibrantes os alimentos que crescem nas nossas latitudes. E, acima de tudo, devemos ter em conta o impacto das nossas escolhas e consumir maioritariamente produtos locais ao invés de contribuir para a pegada de carbono com a adquisição de produtos que viajam milhares de km.

Por outro lado, a apanha das amoras, para além de levar-nos ao recuperar de uma tradição campestre, oferece-nos uma experiência especial de conexão com a Natureza, em que somos chamados à atenção-plena enquanto esquivamos os espinhos da silva para escolher as amoras mais suculentas… E no entretanto, vamos apreciando os frutos nos seus vários estágios de maturação e as flores em diferentes etapas floração… Tal como as abelhas, moscas, pássaros e borboletas, que por lá passam e usufruem da abundância do ofertório.

Beldroegas

No Verão estas bonitas folhinhas carnudas recheiam os meus pratos. E este ano são da minha horta! Estou tão feliz por ver os belos mandalas de beldroegas crescendo por aqui, de forma espontânea, com tanta força e abundância! Um valioso regalo, reflexo de que o solo agora tem mais vida, graças ao carinho e nutrição que lhe temos dado.

Eu vibro muito com tudo o que cresce assim, de forma espontânea, de Graça… além da magia inerente à surpresa, da rebeldia na forma da aparição e da força vital que trazem, as plantas silvestres comestíveis têm um poder nutricional incrível, que é, de um modo geral, superior ao das cultivadas!

E penso cá para mim… acho que é “pecado” não as comermos e não usufruirmos destes regalos divinos em forma de “superalimento”…

Temos o direito e o dever de recuperar a relação com as plantas silvestres comestíveis e medicinais, apesar de desconsideradas na sociedade industrial capitalista. Elas fazem parte da nossa cultura e humanidade e trazem respostas e soluções para muitos problemas actuais…

Se vives na cidade também as encontras, às beldroegas e outras bravias, quer em jardins, quer por entre as pedras das calçadas, em fendas de paredes ou até mesmo nas fissuras do alcatrão, de onde conseguem irromper, qual manifesto de vida e beleza, materializando diálogos secretos entre os elementos e recordando-nos a resiliência eterna da mãe Natureza. Contempla-as mas não as consumas (estas dos espaços públicos urbanos), pois podem estar contaminadas por venenos ou dejectos de animais. É melhor fazer um passeio por hortas, jardins e bosques onde saibamos que estão limpas.

Felizmente o interesse pelas PANC’s (Plantas Alimentícias Não Convencionais) está em expansão e é frequente encontrá-las à venda nos mercados de produtores biológicos – no Príncipe Real, Campo Grande, Feira da Ladra, etc –  (quando vivia em Lisboa era lá que ia comprar)

As beldroegas (Portulaca oleracea) dão-se especialmente bem em hortas, a par com as hortícolas, onde usufruem das regas abundantes destinadas a estas e da fertilidade do solo. As suas sementes são minúsculas e cada planta gera milhares, que depois podem permanecer viáveis ​​no solo por décadas! Ao encontrarem as condições ideais, lá para finais de Maio, as mais bravias começam a brotar e as suas folhinhas vão-se expandindo, com geometrias estrelares, criando belos tapetes em “horror vacui”.

Sou muito grata pela abundância desta plantinha aqui na terra! Elas são daqueles superalimentos com inúmeras propriedades, além de que têm um sabor e textura maravilhosos!

São uma das plantas mais ricas em Omega 3. Alguns investigadores referem mesmo que tem DHA (ácido gordo essencial, da família Omega 3, com grande poder antinflamatório e antioxidante, sobretudo a nível cerebral e do sistema nervoso) nos rebentos tenros, algo que parece ser inédito numa planta de terra (algumas algas marinhas e peixe azul são as fontes de que se tem conhecimento).

Têm também grande quantidade de compostos antioxidantes: como a vit. E, C, betacarotenos, flavonoides… E vários minerais importantes, incluindo potássio, magnésio e cálcio.

Estas características fazem dela uma planta com importantes propriedades antinflamatórias e excelente para o fortalecimento imunitário. É também muito interessante como diurética e digestiva – devido aos mucílagos, é óptima como calmante a nível das mucosas digestivas e das vias urinárias. Essas propriedades emolientes também têm utilidade a nível externo em situações de queimaduras e outras irritações de diversas etiologias.

Como consumir:

As possibilidades são infinitas pois toda a planta é deliciosa e comestível (inclusive as sementes). Quem já me conhece sabe da minha paixão pela Alimentação Viva e crua e com o calor o meu corpo naturalmente pede saladas gigantes, coloridas, cheias de beldroegas! Em cru aproveito ao máximo as suas propriedades e a textura suculenta. Quer as folhinhas, quer os caules jovens são super tenrinhos e crocantes, com um toque ácido suave e mucilaginoso. Adoro! Combinam bem com tudo, devido ao ser sabor suave, nada invasivo. Eu gosto especialmente de juntar tomate, pepino e orégãos, entre outras plantas, silvestres e de cultivo, que crescem na horta.

Cozinhadas também são deliciosas e o sabor intensifica-se. Na nossa gastronomia temos as famosas sopas de beldroegas, típicas do Alentejo. Eu adoro sopa de beldroegas com tomate (acho que há uma simbiose especial entre os dois). Aproveitando os excedentes da horta, hoje fiz um puré de curgete com batata, cebola e alho. Já quase no final juntei as beldroegas (elas cozem muito rápido), tomatinhos, muuuiitos orégãos e azeite. Ficou uma delícia!

Também as podes juntar em arrozes, guisados, lasanhas, etc.

E tu, já usas as beldroegas? Como gostas de as consumir?

Onde comprar alimentos em contexto de confinamento?

Tenho reparado em enormes filas nas portas dos supermercados, aos sábados de manhã… dia de mercados bio ao ar livre em vários pontos da cidade de Lisboa (no Príncipe Real, no Campo Pequeno, na Feira da Ladra, no Parque das Nações, em Carcavelos, em Almada, Cascais, Loures…) e por isso, é o dia em que frequentemente me desloco a algum deles para comprar um saco cheio de hortaliças e de outros alimentos maravilhosos, viçosos, recém colhidos (no caso das hortaliças) e de produção local.

E penso… apetecia-me ir ali, à fila do supermercado, dizer a cada um e a cada uma: “Vem, hoje é dia de mercado de “alimentos-medicina”!!! E é ao ar livre e não tens (quase) fila!

Entristece-me ver aquele hábito de comprar “alimentos” processados, açucarados, contaminados, muitas vezes sem consciência de quanto nos atordoam e nos debilitam o sistema imunitário, assim como da pegada ecológica e social que têm detrás.

Que pena tantos desconhecerem ou desconsiderarem as benesses dos alimentos reais, tão maravilhosos, tão saborosos que nos dão saúde e alegria, que nos fortalecem o sistema imunitário, que fomentam o equilíbrio emocional e nos enchem de vitalidade!

Quanta saúde e empoderamento de fácil alcance porém invisibilizado…!

Muitas vezes é pelo preconceito de que os “bio” são caros! Pensamento instigado pelas sociedades capitalistas competitivas… E alinhamos nesse afã por gastar o mínimo possível na alimentação, enquanto investimos na melhor marca para objectos que não nos são essenciais.

Mas… e que sejam caros, nem é verdade! Se fizermos uma análise holística vemos que são SEMPRE mais baratos… temos um “barato” de longo prazo, economizando dinheiro e tempo em tratamentos de saúde (pois com os alimentos bio estás a apoiar o funcionamento óptimo dos teus orgãos sem sobrecarga tóxica, prevenindo problemas endócrinos, neurológicos e cancerígenos).

Por outro lado, em relação ao numerário gasto no momento, digo-te: várias/muitas vezes encontrei alguns produtos mais baratos no “bio” que no “convencional” (vegetais, castanhas, sementes, frutos secos…). 

E que outras vantagens encontro nos mercados bio?

– Não têm fila (ou muito menos que num supermercado convencional)

– Estás ao ar livre (e alguns mercados estão localizados em espaços bem bonitos e cheios de arvoredo – é um boa oportunidade para estares ao ar livre neste período com tantas restrições)

– Tens todo o tipo de vegetais, frutas, PANC’s (plantas alimentícias não convencionais), leguminosas, cereais, pão artesanal, flores, etc

– Não tens embalagens, não tens aditivos, nem rótulos com nomes estranhos!

– Só tens alimentos saudáveis, portanto não tens como comprar coisas que corrompam os teus desejos fisiológicos. Num supermercado, acabas por sentir o apelo dos alimentos processados, ricos em açúcar refinado, sal e gorduras trans. Os quais trazem toxicidade ao teu corpo, baixam a imunidade e propiciam a instabilidade emocional.

– “Poupas” em suplementos: produtos biológicos, integrais/inteiros, recém-colhidos são muito mais ricos em nutrientes 😉 vitamina C, A, carotenoides… zinco e outros minerais; quercitina, antocianinas, sulforafanos, entre outros antioxidantes; vitaminas do grupo b (incluindo a afamada b12), etc.

– Quase todos os produtos são nacionais e de proximidade (a maior parte das bancas só vende mesmo produção própria). Consumir produtos sazonais e locais traz também enormes benefícios à saúde e ao ambiente. Naturalmente, as nossas terras, nestas latitudes e nesta altura do ano, não produzem manga, tomate ou pepino, por exemplo! São necessários muitos mais recursos, ou a importação, ou o uso de hormonas e outros tóxicos para os termos nos supermercados nos meses de inverno.

– Apoias pequenos produtores, ao invés de grandes corporações. O dinheiro vai directamente para as mãos das pessoas que vês. Pessoas que trabalham a terra sem a envenenar, que cultivam em modo plural, diversificado, conhecendo os diálogos e amizades que se estabelecem entre as plantas, os insectos e os elementos…  quais guardiães da biodiversidade! 🙏💚🌎

E recorda, o teu consumo é um ato político… vota bem com o que consomes!

Como dizia Agostinho da Silva, “ Eu não quero saber das campanhas eleitorais (…) quero saber das ideias que as pessoas têm e da maneira como depois as vão defender e praticar.”

Caso não tenhas a possibilidade de te deslocar a estes belos mercados podes também fazer a encomenda de cabazes bio directamente aos produtores ou através de lojas de produtos bio.

Deixo-te o link onde te podes informar sobre os mercados bio ao ar livre:

https://agrobio.pt/contactos-produtores-mercados-agrobio/

Cuida-te! Cuida da Terra!